Dava pra ver a silhueta dela através das lentes embaçadas de seus óculos. Parecia ainda mais perfeita àquela distância. O cabelo loiro e corrido que ia até os ombros, a pele limpa e macia, o corpo escultural... Cada mínimo elemento daquela mulher parecia estar em seu lugar. Não sabia seu nome, mas todo o dia parava em frente do café para vê-la tomar sua xícara. Ficava do lado outro lado da rua, com seus livros na mão, à espera que ela terminasse de beber e entrasse de volta no Peugeot 206 e dirigisse para algum misterioso lugar. Provavelmente seu trabalho, dado que isso ocorria todos os dias por volta das oito da manhã. Não parecia ter filhos, nunca atendia o celular enquanto estava dentro do estabelecimento, não usava aliança e nunca parecia preocupada. Apenas estes elementos eram primordiais para um cara qualquer ir dar alguma cantada ou tentar puxar uma conversa. Mas não para ele. Parecia que ter aquela imagem todos os dias de manhã já era suficiente. Há algum tempo atrás ainda validava em sua mente se devia ou não entrar lá e falar alguma coisa, mas essa idéia parecia ainda mais infantil do que sua verdadeira idade.
Mas neste dia em especial ela não apareceu. O miúdo virou seus grandes óculos para todos os cantos que seus 153 centímetros lhe permitiam, mas não conseguiu encontrá-la. Chegou até mesmo a entrar no café, para ver se por acaso sua mesa não pudesse ter sido mudada de lugar. Mas não. Estavam ali as duas cadeiras (uma sempre ficava com a bolsa apoiada para ninguém mais ocupá-la), estampadas com flores azuis e amarelas, completamente vazias. Não havia mais o que fazer. Andou para a escola com um semblante tristonho e foi ainda mais caçoado pelos colegas de classe. Normalmente, nessas horas, a imagem daquela serena mulher não o fazia perder a cabeça. Chegou a casa já chorando, lembrando já não dela, mas das gozações dos outros miúdos. Dormiu com as lágrimas secas ao redor dos olhos vermelhos.
No dia seguinte lá estava ela, a imagem que completava seu mundo, o seu pedaço de manhã, a sua janela, seu céu azul... E tudo parecia que ia ficar bem de novo.
Meebo Bar
quinta-feira, 13 de maio de 2010
Oito anos
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Biia :), em primeiro lugar quero dizer que fiquei encantada com todas as suas personagens, e a maneira como voce as descreve, nao so as personagens mas tambem o ambiente que voce as enquadra, é tudo tao simples e tao facil de imaginar... (eu sempre fiquei muito irritada com aqueles livros que voce quase precisa de um dicionario pra perceber oq o escritor quis dizer kkkk)mas é isso... continua assim Bjo :*
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