Meebo Bar

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Salto alto

Alarguei o passo para tentar não pisar naquela pedra minúscula que estava no caminho. Não sei se consigo descrever o esforço que foi necessário para este simples ato. Penso que única forma de explicar seja dizer que assim que pousei a sola do meu sapato de 10 centímetros - o motivo - no asfalto, automaticamente uma lágrima percorreu meu rosto de tanta dor. Meus pés já acumulavam bolhas há uns quatro dias, como se estivesse colecionando para encher um álbum de figurinhas. E a cada vez que saia de casa com mais um salto alto, o direito brigava com o esquerdo sobre quem iria me machucar mais.
Enquanto andava pé ante pé neste sofrimento, avistei uma loja de roupa do outro lado da esquina. Era uma dessas que tinha o nome tão complicado que se tornava não somente ilegível como indecifrável. Sentei-me numa cadeira tipo francesa que fazia conjunto com uma mesa igualmente importada e um Maître internacional, que me perguntava se eu gostaria de alguma coisa. Pedi uma água, o que imaginava ser o consumo mais barato. Fiquei ali apenas para poder contemplar a loja do outro lado da rua, que mesmo sendo tão cara que não possuía nenhum cliente dentro, as funcionárias contorciam o rosto para fazer uma expressão de realização, enquanto cochichavam umas com as outras falando mal uma das outras.
Acendi um cigarro desses finos que quase não tem nicotina. Não fumo, mas sempre carrego um comigo para no caso de precisar parecer importante, e um café francês pedia isso. Nem mesmo colocava o tubo branco na boca, apenas ficava ali com ele entre os dedos, desejando que o vento soprasse na direção contrária e afastasse o fumo do meu nariz.
Não queria sair. Aproximadamente 5 minutos depois que minha água tinha acabado o Maître trouxe outra garrafa já aberta, então me apercebi que se não tratasse de ir embora antes da segunda água acabar, teria que pagar todas as garrafas que ele aguentasse me trazer. E algo me dizia que não se cansaria rápido.
Paguei o restaurante e resolvi passar naquela loja com o nome indecifrável. Fui surpreendentemente bem atendida por uma vendedora loira que, assim que virei as costas com meu novo cachecol verde limão, começou a cochichar algo sobre meus sapatos para as outras.
Com a adrenalina no corpo dada pela nova sacola cinzenta estampada com o nome da loja em dourado nas mãos, eu mal percebia o dor das bolhas dos pés. Ocupei meus pensamentos em que conjunto de roupas poderia combinar minha nova peça e de que forma iria esconder o saco no guarda-roupa para meu marido não se aperceber que andei com seu cartão de crédito por ai.
Entrei no carro perfeitamente bem lavado e, só por precaução, meti minha nova peça dentro do porta-luvas.
Dirigi tranquilamente até chegar na 5ª avenida, o centro de mansões. Sinceramente não sei o que nossa casa fazia ali. De fato tínhamos um local grande, mas aquele estilo de vida não fazia nosso tipo. Pessoas simples, pelo menos eu me considerava assim.
Virei a fechadura e encontrei tudo em seu perfeito local. Antes de me dirigir a cozinha e deitar o vidro da garrafa d’água fora, reparei num envelope laranja que estava pesarosamente pousado em cima da bancada de entrada. Tinha meu nome em cima, escrito com letras maiúsculas, pretas e frias. Abri-o. Li apenas o assunto para sentar no sofá e deitar as mãos na cabeça, com as lágrimas rolando pelo rosto dessa vez não pelos saltos.
Divórcio.

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