A mesma voz que ecoa às sete e quarenta e cinco da manhã, todos os dias, continuava a soar. O que era agora? Ah, incêndio. Nenhuma morte, ainda bem! Intervalo (com promoção de eletrodomésticos). Alguns inúteis minutos depois, a mulher maquiada para esconder as rugas, que na verdade já eram de conhecimento mundial, retornou à tela com mais uma catástrofe encomendada. Assalto. Dessa vez duas pessoas morreram. Desliguei a televisão. Perambulei pelo corredor observando as fotos que estavam cercadas por uma moldura feita de fios dourados. Eram todas praticamente iguais, apenas o bebê crescia ao longo delas, e quanto ao resto das pessoas, eram as mesmas, com a mesma expressão, mesmo tamanho, mesmo feitio, e, incrivelmente, as mesmas roupas. Estava mesmo à espera que na 5ª fotografia pudesse estar uma menina de 7 anos usando fraldas. Aliás, era a única que fazia questão de mudar qualquer coisa. Voltei o corredor inteiro e passei apenas a observá-la. Na primeira foto, devia ter uns 6 meses, estava ao colo da senhora mais velha, que estava com um vestido muito longo estampado com pequenas flores. Não se identificava nada da bebê, apenas que estava enrolada num cobertor cor-de-rosa. Deu até vontade de ficar ali no meio, aconchegada. Na segunda foto devia estar com dois anos. Todo o resto era o mesmo, até a senhora com o vestido. Mas ela carregava um porquinho de pelúcia e fazia uma careta para a câmera. Na terceira não parecia ter passado muito tempo, mas já usava um vestidinho rosa, com uns óculos em forma de estrela, da mesma cor. Na quarta fotografia já estava bem maior que a anterior, e apenas sorria. Na próxima já estava uma adolescente formada, e ao seu lado estava um rapaz com uma aparência simples. Nas molduras seguintes a senhora de cabelos brancos já não estava presente, mas o jovem continuava ao lado da menina, com o braço enrolado na sua cintura. Era um cara sortudo.
- Essa daqui sou eu. - Minha colega de trabalho apontou, por trás de mim, uma senhora bem gordinha.
- Meu Deus! É sério? - Perguntei tentando esconder o susto que levei por ela estar me observando ver as fotos. Há quanto tempo será que ela estava ali?
- Sim. Emagreci bastante.
- Uau! Parabéns.
Silêncio.
- Quem é essa? - Perguntei apontando para a garota. Os olhos da minha colega encheram-se de água. Fiquei sem reação.
- Essa... - Disse com lágrimas nos olhos, enquanto acariciava o próprio braço. - Essa é a Amy. Minha Amy...
Foi então que eu percebi que a menina Amy já não estava na próxima moldura dourada.
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