Quando deixou finalmente a tinta percorrer o tecido, fechou os olhos. Gostava de pintar com eles fechados para deixar os sentimentos tomarem conta do corpo. Assim também não precisaria se preocupar se a linha estava reta ou não. Era arte. Era dela. Era ela.
Deixou a vida tomar conta de suas mãos, desconcentrando a raiva que tinha guardada e passando-a para a tela. Mais do que relaxante, era uma saída.
Abriu os olhos somente para mudar a cor do pincel. Amarelo. Sentiu novamente o momento.
Rosa, Preto, depois roxo e, para terminar, laranja. A tela parecia não ser o suficiente. Queria pintar para sempre e não precisar passar na mercearia para comprar nada.
Empurrou os quadros pendurados e fez flores na parede. Também não era o bastante. O chão, o armário, o vaso sanitário, o lençol da cama, o teto... Até acabar a tinta e a raiva. Precisava ir na mercearia.
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